Cinema Em Foco: O Duplo

Por Beatriz Fabri

28 de maio de 2015

Nada melhor que um filme para questionar nossa existência, nosso significado, nossas contradições internas. Quem sou eu? Quem é você? Quem somos nós? Este é O Duplo (The Double), filme inspirado no livro de Fyodor Dostoievisky, escrito em 1846 com mesmo nome. Um dia você se depara com um sósia seu, uma pessoa idêntica a você fisicamente mas que é o seu oposto em termos de personalidade. Todas aquelas suas fraquezas, tudo que você mais odeia em você, suas inseguranças, não existem nessa pessoa, essa pessoa é forte e confiante. Que choque, não ? Esta é a história de “O Duplo”.

Primeiramente vou falar sobre os cenários e as cores: BRAVO! A impressão que eu tive, enquanto estava vendo o filme, era a de que cada cena era cuidadosamente montada de forma a parecer uma fotografia. Os objetos que compõem o cenário são lindos, além disso parece que os atores estão posando para uma foto em cada cena. O filme todo é feito em tons de marrom, ocre, bege, cinza, creme, tudo parece sem vida. A luz nunca é branca, é sempre em um tom amarelado, dourado, o que para mim é muito interessante por que normalmente os filmes mais darks tem os tons mais acinzentados com luz branca e fria, e neste caso a luz é quente, acolhedora (e um pouco sinistra também), e isto é interessante de se pensar já que as relações dos personagens são frias. Todos o tratam com tanta frieza que ele passa desapercebido muitas vezes, como se não existisse.

Simon James é invisível. Ninguém parece que o nota, nem a sua própria mãe consegue enxergá-lo em um comercial que ele fez para a empresa em que trabalha. Falando nisso, o local em que ele trabalha foi feito de forma a ser uma exacerbação do pior lado de uma empresa. Além ser um lugar sujo, mal cuidado, caindo aos pedaços, é o típico escritório sem iluminação, onde cada um trabalha no seu minúsculo quadradinho, sem ver os outros, sem se relacionar com ninguém. Sem contar a parte do descaso pelos funcionários, e Simon James é definitivamente a personificação do funcionário desprezado pelo chefe e pelos colegas de trabalho. Há um momento em que ele diz para seu chefe que terminou o relatório e que até fez mais do que lhe foi pedido e o chefe vira e fala “você começou aqui esses dias, né?”, ao passo que ele responde: “já faz sete anos”.

Sabe quando ocorre uma situação e você reage de um jeito e depois fica pensando que poderia ter feto diferente? E se você visse um outro você fazendo exatamente aquilo que você deveria ter feito naquele momento? Isso começa a acontecer quando Simon James conhece “James Simon”, o novo funcionário. Este é um filme que mostra muito o lado contraditório da vida, das coisas, do ser. Todos nós temos uma dualidade, todos nós temos contradições e temos que viver com essas brigas internas. Muitas vezes o nosso outro lado nos sabota, nos humilha, nos prega peças e é super cruel, crítico e sarcástico conosco.

Quais são as lutas que travamos todos os dias para comprovar a nossa existência? Para comprovar os motivos pelos quais estamos aqui, para entender por que existimos. Outra coisa… nós só existimos a partir do momento que somos úteis para o sistema? Quem define o que é ser útil ou não? E se na verdade, por entrar no sistema, estivermos fazendo um desserviço à sociedade. O que realmente importa? E como dar mais significado à nossa efêmera existência nesse mundo? Esses são alguns dos questionamentos que surgirão ao assistir "O Duplo". Vale a pena conferir, espero que gostem!


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